RESENHA: A VILÃ DA TEMPORADA
O livro acompanha Jacque, uma autora em início de carreira que aceita participar de um reality show de encontros (tipo The Bachelor), não exatamente por acreditar no amor, mas porque precisa vender livros, pagar contas e se manter relevante. Ela entra sabendo que não será “a escolhida” entre várias mulheres... seu papel ali é outro. O problema começa quando a edição do programa decide transformá-la na vilã da temporada.
E é justamente aí que Laurie Devore começa a brincar com algo muito mais interessante do que apenas romance ou sátira midiática.
A narrativa se constrói a partir de múltiplas camadas: cenas do reality show em tempo real, flashbacks da vida da Jaque, comentários cruéis (e muitas vezes realistas demais) da internet e, principalmente, a autoanálise constante da protagonista. A forma como essas camadas se entrelaçam cria uma leitura fluida, mas emocionalmente mais densa do que parece à primeira vista. Eu me peguei lacrimejando em algumas partes.
Jaque é uma protagonista profundamente consciente de seus próprios erros e falhas. Ela se observa o tempo inteiro: reações, falas e silêncios, a forma como é percebida pelos outros e, sobretudo, como ela acredita que é percebida. Existe um abismo doloroso entre quem ela é, quem ela acha que é e quem a edição do programa decide que ela será.
O que mais me tocou no livro foi justamente essa relação da personagem consigo mesma. A maneira como Jaque se enxerga não é exagerada nem caricata; é desconfortavelmente familiar. Ela se cobra, se diminui, se justifica mentalmente antes mesmo de ser acusada e se engana o tempo inteiro. Até as cenas com os rapazes, onde ela parece se sentir mais confortável, são dramáticas porque ela parece sempre performar. A psique dela é tratada com muita sensibilidade, sem jamais cair em melodrama.
Laurie Devore acerta ao usar o reality show como metáfora de algo maior: a cultura do julgamento constante, da edição seletiva, da narrativa única imposta sobre pessoas complexas. Os comentários de internet que aparecem ao longo do livro são especialmente eficazes. A metalinguagem aqui é usada não como um recurso cruel, mas para mostrar reações plausíveis. Os textos soam exatamente como aquilo que lemos diariamente nas redes sociais, onde ninguém é visto como inteiro, apenas como personagem. E, acredite, quem crie conteúdo também sofre com isso.
Apesar de tudo isso, A Vilã da Temporada não é um livro pesado. Pelo contrário: há muita leveza na escrita, humor sutil, ironia bem dosada e uma certa ternura na forma de lidar com os personagens. O livro entende a dor de Jaque, mas não a transforma em espetáculo. Permite o erro e traz a redenção.
O romance, que poderia facilmente ser o foco principal, funciona quase como um pano de fundo. Ele existe, importa, mas não domina a narrativa. O verdadeiro arco do livro não é “quem Jaque vai escolher” ou “se ela vai encontrar o amor”, e sim como ela aprende (ou tenta aprender) a se enxergar para além da narrativa que criaram sobre ela — e, mais difícil ainda, para além da narrativa que ela mesma criou.
O final é agridoce, exatamente como a vida costuma ser quando não se rende a soluções fáceis. Não há grandes viradas milagrosas nem finais perfeitamente amarrados. Há escolhas, perdas, pequenos ganhos e uma sensação de crescimento que não vem acompanhada de euforia, mas de maturidade. É um final que respeita o tom do livro e a complexidade da protagonista.
No fim das contas, A Vilã da Temporada me ganhou justamente por aquilo que eu não esperava encontrar: profundidade emocional, reflexão sobre identidade, imagem pública, autocrítica e o peso de viver sendo constantemente observada (principalmente por si mesma).
É o tipo de livro que começa como entretenimento e termina como espelho.
Como você tem se visto?

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