A famÃlia viaja de carroça até o Kansas e começa praticamente do zero. Pa constrói a casa, os móveis e tudo aquilo de que precisam enquanto eles tentam transformar um pedaço da pradaria em lar. É impressionante imaginar a quantidade de trabalho necessária apenas para existir naquele lugar (será que eu seria menos reclamona ou mais?). Ao mesmo tempo, a natureza continua sendo uma presença constante: tempestades, animais, doenças, incêndios e a distância de qualquer tipo de ajuda fazem parte da vida deles. Só que existe uma diferença importante em relação ao primeiro livro: os Ingalls estão ocupando território indÃgena e essa foi a parte que mais me fez refletir (algo que acontece também a partir do quarto livro de Outlander).
O livro foi publicado em 1935 e narra lembranças de uma infância vivida no século XIX, então obviamente encontramos pensamentos que hoje causam bastante incômodo. Caroline demonstra medo e preconceito contra os indÃgenas, enquanto outros personagens conseguem ser ainda piores. A senhora Scott, especialmente, me irritou profundamente. Pa possui uma postura menos hostil, embora também faça parte daquela ocupação. Laura continua sendo uma querida e parece enxergar algumas dessas situações de uma maneira muito mais simples.
É muito incômodo lembrar o que foi feito com os indÃgenas, verdadeiros donos da terra, e ainda foi criado um feriado para lembrar sempre de como eles foram receptivos como os peregrinos... e mesmo assim olha o destino que tiveram. Foi impossÃvel não pensar nisso durante a leitura, principalmente quando fica claro que o governo reconhecia aquela região como território indÃgena e que os colonos poderiam ser retirados. A gente acompanhou a famÃlia construir aquela casa com as próprias mãos, então existe tristeza ao vê-los perdendo tudo. Ao mesmo tempo, aquilo nunca deveria ter sido deles.
Essa contradição é provavelmente o aspecto mais interessante do livro para mim. Eu gosto dos Ingalls. Estou acompanhando aquela famÃlia há dois livros e obviamente não quero que nada ruim aconteça com eles. Só que gostar dos personagens não significa concordar com tudo que pensavam ou ignorar o contexto histórico em que estavam inseridos.
Além das histórias da Laura, estou conhecendo pequenos detalhes da vida no século XIX que sempre estou procurando nos vÃdeos de youtube com loooongas explicações da vida em outros tempos. É bem legal ver uma narração sobre isso, não só os tópicos. Toda hora aparece alguma coisa que me faz interromper a leitura para descobrir como funcionava.
Uma Casa na Pradaria continua sendo uma leitura simples e muito acessÃvel, mas achei esse volume bem mais complexo do que o primeiro justamente pelo contexto histórico. A inocência da Laura permanece ali, assim como o amor pela famÃlia e pela natureza, mas agora existe todo um cenário de expansão territorial acontecendo ao redor dela.
O livro e a série da Netflix
A nova série da Netflix é baseada diretamente neste livro, mas não é uma adaptação cena por cena. Ela mantém vários acontecimentos importantes, como a viagem ao Kansas, a construção da casa, os lobos, a doença e o incêndio, porém expande bastante tudo que no livro conhecemos apenas através da perspectiva limitada de Laura. A maior diferença está justamente nos personagens Osage. No livro, a gente conhece esses povos pelo olhar dos Ingalls e dos outros colonos, já a série cria personagens indÃgenas com histórias próprias, incluindo Good Eagle e sua famÃlia, e mostra o que estava acontecendo com os Osage enquanto os colonos ocupavam suas terras. Good Eagle, inclusive, foi criada para a adaptação e desenvolve uma amizade com Laura que não existe no livro. Independence também ganha muito mais importância, já que no livro é basicamente um lugar para onde Pa vai buscar mantimentos, enquanto a série transforma a cidade e seus habitantes em parte da trama. O final também ganha outro desenvolvimento: no livro, Pa descobre que soldados poderão retirar os colonos do território e decide partir antes disso, mas a série cria toda uma trama envolvendo negociações, interesses econômicos e os Osage discutindo o futuro de suas terras. Achei uma escolha interessante porque preserva a história da famÃlia que estamos acompanhando, mas mostra um lado que Laura, sendo uma criança branca vivendo naquele contexto, simplesmente não poderia ter registrado em suas memórias. Ficou mais complexo, dinâmico e interessante.
E vocês, já leram ou viram a série? O que acharam?








