Carrie é uma das minhas histórias favoritas do Stephen King e, mesmo assim, nunca fui do tipo que acha que uma adaptação precisa reproduzir cada detalhe do livro para ser boa. Na verdade, acho até que esse preciosismo pode atrapalhar. Uma história escrita nos anos 1970 não precisa ficar presa àquela década toda vez que alguém resolve contá-la novamente. Principalmente quando estamos falando de Carrie, uma obra que nasceu como um alerta sobre coisas que, infelizmente, continuam acontecendo. E foi justamente por entender isso que achei a nova adaptação do Prime Video tão boa.
Mike Flanagan, que para mim continua sendo praticamente irretocável quando o assunto é terror, soube preservar o que importa na história original e, ao mesmo tempo, trazer questões que conversam com a geração atual. A introdução das redes sociais e do cyberbullying, por exemplo, foi uma das escolhas que mais gostei. Carrie sempre falou sobre a crueldade adolescente, a humilhação pública e as consequências devastadoras da violência praticada dentro da escola. Só que hoje essa violência não termina quando o aluno vai para casa. Ela continua no celular, circula em vÃdeos, ganha comentários e pode alcançar milhares de pessoas em questão de minutos. Faz todo o sentido que uma Carrie contemporânea também precise enfrentar isso.
E acho importante lembrar que Carrie nunca foi apenas uma história sobre uma menina com poderes telecinéticos que se vinga de quem a maltratou. É também sobre a desgraça que pode ser a puberdade feminina, especialmente quando ninguém explica o que está acontecendo com o seu corpo. É sobre crescer numa famÃlia dominada pelo fanatismo religioso, sem orientação para compreender o mundo e sem ferramentas para construir relações sociais saudáveis. É sobre bullying, isolamento e as feridas que essas experiências deixam. Mas o livro também é um retrato dos Estados Unidos dos anos 1970, da organização das escolas, dos costumes e até da maneira como aquela sociedade reagiria à existência de fenômenos sobrenaturais. Se a proposta é transportar essa história para outra época, tudo isso precisa ser repensado. Não adianta atualizar o figurino e deixar o restante da narrativa vivendo cinquenta anos no passado.
Gostei bastante das mudanças feitas na estrutura da história. O foco nas entrevistas cria um senso de mistério que acompanha a série até o último episódio, mesmo para quem já conhece muito bem o destino de Carrie White. A narração em off, trazendo relatos sobre mulheres consideradas sobrenaturais ao longo da história e o sofrimento que enfrentaram, também foi uma adição muito interessante. Existe uma relação direta entre esses relatos e o que acontece com Carrie: mulheres perseguidas, temidas ou punidas por caracterÃsticas que a sociedade não consegue compreender ou controlar. E gostei de como a série amplia essa discussão sem abandonar o drama pessoal da protagonista.
Aliás, uma das coisas que mais me agradaram foi justamente essa ampliação do universo. Personagens como Emaline, a entrevistadora e as outras mulheres que aparecem ao longo da narrativa ajudam a construir uma dimensão que as adaptações anteriores praticamente não exploraram. O próprio livro tem uma estrutura quase documental, reunindo diferentes perspectivas sobre o caso Carrie White e sobre a existência da telecinese. Então achei muito interessante que Flanagan tenha recuperado esse aspecto da obra e desenvolvido a ideia de que Carrie não é um acontecimento isolado, mas parte de um fenômeno muito maior.
Ao mesmo tempo, senti que a série ficou mais intimista em alguns aspectos, especialmente na relação entre Carrie e sua mãe. Essa continua sendo a parte mais importante da história, porque é dentro de casa que boa parte do sofrimento da protagonista começa. Não me incomodei com as mudanças na personalidade de Carrie, mas confesso que esperava um pouco mais de loucura religiosa por parte da famÃlia. No livro, o fanatismo é uma presença sufocante, que determina praticamente todos os aspectos da vida da menina. Aqui, tive a impressão de que os pais estavam mais próximos de um perfil conspiracionista do que propriamente religioso. É uma atualização que conversa com a realidade atual, claro, mas acho que dava para explorar melhor os dois aspectos. Principalmente porque a relação entre religião, culpa e repressão do corpo feminino é fundamental para a história.
Sobre o elenco, tenho pouquÃssimas reclamações. Samantha Sloyan está excelente como a mãe de Carrie, o que não chega a surpreender quem já conhece o trabalho dela. Essa mulher consegue transmitir tanta coisa apenas com o olhar que à s vezes nem precisa abrir a boca para deixar uma cena desconfortável. Summer H. Howell também me conquistou como Carrie. Ela é uma gracinha e consegue acompanhar muito bem as mudanças emocionais da personagem, sem cair numa interpretação caricata e sem desaparecer diante de um elenco tão competente.
Sue Snell, Tommy e a Srta. Desjardin também funcionaram muito bem para mim. Gostei das dinâmicas entre eles e de como ajudam a construir o ambiente escolar sem parecer que estão ali apenas para cumprir as funções que conhecemos do livro. E Matthew Lillard como diretor da escola? Eu jamais teria pensado nele para esse papel, mas achei sua interpretação bastante convincente. Ele transmite a postura de alguém que realmente ocupa aquela posição, sem exagerar na autoridade ou transformar o personagem numa figura artificial, nem me lembrar que ele é mais conhecido pelos papéis na comédia.
Minha maior ressalva no elenco fica para Alison Thornton como Chris Hargensen. Não consegui entender muito bem o que ela pretendia transmitir na maior parte das cenas. A Chris não me pareceu raivosa o suficiente, nem cruel o suficiente, nem vulnerável o suficiente para que suas atitudes ganhassem alguma dimensão interessante. E não digo isso porque queria uma vilã completamente unidimensional. Pelo contrário, acho ótimo quando uma adaptação encontra novas camadas para personagens que já conhecemos. O problema é que, nesse caso, não senti que essas camadas foram construÃdas. A personagem acabou ficando meio indefinida, e isso prejudicou minha aceitação da contribuição dela na história.
A ambientação também merece elogios. A série consegue construir a vida dos personagens sem exagerar nos elementos visuais e sem deixar aquela sensação de cenário vazio, que às vezes aparece em produções que se preocupam mais com a estética do que com o mundo em que a história acontece. Tudo parece fazer sentido dentro daquela realidade. E gosto especialmente de como Flanagan consegue equilibrar o cotidiano escolar, os conflitos familiares e o sobrenatural sem fazer parecer que estamos assistindo a três séries diferentes.
No geral, fiquei muito satisfeita com essa nova Carrie. Acho que Flanagan compreendeu que honrar uma obra não significa tratá-la como algo intocável. Significa entender por que ela foi escrita, o que tinha a dizer ao público daquela época e como essa mensagem pode continuar relevante hoje. A série tem suas falhas, principalmente na construção de alguns personagens e na exploração do fanatismo religioso, mas gostei das novas perspectivas, do elenco, da atmosfera e da maneira como a história foi ampliada. O final foi menos cruel que o do livro, teve menos impactor nas andanças da Carrie pela cidade e ao teve uma mudança gigantesca, mas ainda foi competente.
E, considerando as possibilidades que o final novo apresenta, estou bem animada para descobrir o que vem depois. Sei que a ideia de conectar diferentes histórias de Stephen King pode causar certo receio em quem prefere adaptações mais independentes, mas, sinceramente? Eu não achei ruim não. Se for bem desenvolvida, essa proposta pode render coisas muito interessantes.
A partir daqui, SPOILERS do final da série!
Uma das coisas que mais gostei no desfecho foi a ligação estabelecida entre Carrie e os iluminados do universo de Stephen King. A ideia de que seus poderes fazem parte de algo maior abre possibilidades que me deixaram bastante empolgada, principalmente porque conversa com o aspecto quase documental do romance original, que já sugeria a existência de outras pessoas com habilidades semelhantes.
Tudo que envolveu Emaline me pareceu relativamente óbvio, então não foi exatamente essa parte que me surpreendeu. O que realmente despertou minha curiosidade foi a organização de bruxas que estava atrás de Carrie. Ainda não consegui entender quais são suas intenções ou qual será seu papel nesse universo. Será que existe alguma ligação com o culto apresentado em Doutor Sono? Ou será que essas mulheres estão procurando outras pessoas iluminadas justamente para reunir uma força capaz de enfrentar esse tipo de ser?
Não faço ideia, mas gostei muito de ficar pensando nessas possibilidades depois que a série terminou. E, meu pai do céu, imaginar um possÃvel encontro entre Carrie White, Danny Torrance e Abra Stone já é suficiente para me deixar querendo uma continuação. Acho que estou contaminada por universos cinematográficos.
Se a proposta for realmente construir um universo compartilhado a partir das histórias de King, estou curiosÃssima para ver como vão fazer isso. Sei que existem riscos, principalmente quando começam a conectar personagens e acontecimentos que originalmente funcionavam muito bem sozinhos, mas não vejo problema em explorar essas possibilidades. Desde que as conexões façam sentido e não sejam colocadas ali apenas para provocar uma reação dos fãs, acho que temos um caminho bastante promissor pela frente.
E se for feito pelo Mike Flanagan, aà é acerto garantido.






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