• Home
  • Resenhas
  • Colunas
    • Filmes
    • Séries
    • Top
  • Sobre
    • O Blog
    • Quem Sou Eu
  • Contato

Grazi Comenta

 


Travessuras ou Gostosuras:

monstros, romance e algumas surpresas

Eu adoro coletâneas de contos quando elas permitem conhecer diferentes estilos de escrita e experimentar histórias que talvez eu não procurasse individualmente. Foi assim que conheci muitas autoras de romance de época. E Travessuras ou Gostosuras tem uma proposta bem divertida: reunir seis autoras de romance para contar histórias envolvendo vampiros, demônios, criaturas sobrenaturais e outras figuras que combinam com o imaginário de Halloween. É basicamente uma reunião de monster romances, com direito a bastante sensualidade e algumas situações bem inusitadas.

Mas já adianto que gostei de algumas histórias muito mais do que de outras. E a que eu esperava ser a mais esquisita não foi a campeã real. E preciso mencionar que adorei a tradução do títulos que brincou com o meme do ''pare com essas brincadeiras gostosas'' e o bordão do Halloween (arrasou Arqueiro!). 

O primeiro conto, da Ali Hazelwood, tem aquele charme que já conhecemos da autora. A história acompanha uma vampira que passou séculos sendo perseguida por um caçador e que, de repente, se vê numa situação bastante conveniente: ele sofre um acidente, perde a memória e parece completamente apaixonado por ela. As tentativas de Ethel de contornar a situação são divertidas, e gostei das lembranças dos encontros anteriores entre os dois. Só achei que a história demorou um pouco para decolar. Diferentemente das novelas mais longas da Ali, que costumam me prender logo nas primeiras páginas, aqui não consegui criar tanta empatia pelos protagonistas. Ainda assim, gostei da reviravolta e foi uma leitura agradável. 3,5 estrelas.

O conto da Christina Lauren foi outro que me divertiu. Cat vai a uma festa de Halloween com o namorado, que logo a abandona para fazer outras coisas, até chamar a atenção de Brigan, um imortal caído cuja habilidade de seduzir qualquer pessoa parece simplesmente não funcionar com ela. A partir daí, os dois começam a tentar entender essa conexão tão inesperada. Não achei que a história aproveitou tanto o clima de Halloween, mas tem aquela combinação de humor, romance e diálogos gostosos que costuma funcionar muito bem nas obras da dupla. É curtinha, divertida e entrega exatamente o tipo de entretenimento que eu esperava. 3,5 estrelas.

Já o conto da J. T. Geissinger foi o que mais conseguiu trazer uma atmosfera de Halloween propriamente dita. E não fiquei surpresa, considerando que estamos falando da autora de Blackthorn e da série Rainhas & Monstros. Quem conhece suas histórias sabe que ela gosta de trabalhar com romances mais sombrios, personagens perigosos e uma atmosfera que combina muito bem com essa época do ano. Aqui temos uma jornalista investigando lendas sobrenaturais em Nova Orleans e um tatuador misterioso envolvido numa maldição familiar. A história é interessante, tem uma boa dose de mistério e gostei da dinâmica entre os protagonistas, embora não tenha achado o casal particularmente carismático. Ainda assim, foi uma boa leitura e provavelmente a que mais entregou o lado assustador da coletânea. 3,5 estrelas.

Agora, confesso que achava que a história da Ruby Dixon fosse a mais extravagante no quesito monster romance. Afinal, estamos falando da dona e proprietária dos aliens azuis gostosões! 😂 Mas acabou que a história da Kimberly Lemming conseguiu ser muito mais esquisita. Em Amor e sangue no espaço uma humana que foi abduzida e mantida como animal de estimação por alienígenas acaba sozinha numa estação espacial com uma criatura geneticamente modificada que eles não conseguem controlar. Ela resolve fazer uma aliança com o vampiro espacial, que recebe o nome bastante ''original'' de Vlad. Gostei muito mais do que esperava! A história tem começo, desenvolvimento e conclusão bem amarradinhos, a relação entre os personagens funciona e a criatura vai aprendendo sobre o mundo através dela. Foi uma das experiências mais satisfatórias da coletânea. 4 estrelas.

Já a história da Katee Robert foi exatamente o que eu esperava que o conto da Ali Hazelwood fosse. Doce pesadelo acompanha Gemma, uma demônia em treinamento que não está conseguindo cumprir suas tarefas de assustar humanos. Para piorar, recebeu um poder considerado bastante medíocre e está na sua última oportunidade de provar que consegue fazer o trabalho. Só que sua primeira missão acaba tomando um rumo bem diferente do planejado quando ela conhece Caleb. Achei a história muito carismática, divertida e diferente. Adorei acompanhar o romance pelo ponto de vista de uma criatura que deveria ser assustadora, mas que acaba sendo uma personagem adorável. É quase uma subversão do próprio conceito de monster romance, e justamente por isso foi uma das minhas favoritas. 4 estrelas.

Infelizmente, não posso dizer o mesmo de Só namoro monstros, da Kimberly Lemming. Lucy é abandonada pelo namorado durante uma trilha e acaba chegando a uma cidade bastante peculiar, onde vários homens atraentes parecem interessados nela. O problema é que um antigo metamorfo também está de olho na protagonista e tem planos próprios para ela. A premissa é criativa, tem humor e uma situação bastante absurda envolvendo criaturas sobrenaturais, mas não funcionou comigo. Achei tudo esquisito demais, especialmente quando os romances começam a se desenvolver. Não consegui entrar na proposta e minha experiência acabou sendo meio sem graça. A criatividade da autora é grande, mas não foi para mim. 2,5 estrelas.

Travessuras ou Gostosuras foi uma coletânea divertida, mas bem irregular. Mesmo que todas as histórias mencioassem Halloween, senti que algumas estavam muito mais interessadas em explorar a ideia de que monstros também podem ser sensuais do que realmente construir uma atmosfera assustadora. É uma leitura interessante para quem gosta de romances sobrenaturais e quer experimentar diferentes autoras sem precisar se comprometer com livros longos. 

A experiência geral foi positiva, a variedade de propostas torna a coletânea uma leitura descontraída para quem gosta de monster romance e não tem medo de encontrar umas coisas bem fora da caixinha.

segunda-feira, novembro 02, 2026 No comments


Sinopse

Andrew sempre encontrou refúgio nos contos de fadas sombrios que escreve ao lado do melhor amigo, Thomas. Mas, quando Thomas começa a agir de forma estranha e seus desenhos de monstros passam a ganhar vida, os dois precisam enfrentar criaturas cada vez mais perigosas escondidas na floresta proibida da escola. Enquanto tentam impedir novas mortes, sentimentos antigos e segredos difíceis de aceitar tornam a batalha ainda mais complicada.

Opinião


Não Perturbe a Floresta mistura fantasia sombria, horror e romance queer em uma história que parece um conto de fadas quebrado. Foi uma mais uma daquelas leituras que me conquistaram muito mais pela atmosfera do que pela trama. A premissa já chama atenção por si só: um garoto escreve contos de fadas macabros, seu melhor amigo desenha os monstros dessas histórias e, de repente, essas criaturas começam a ganhar vida. Parece uma ideia saída de um pesadelo, e é exatamente essa sensação que acompanha a leitura inteira.

A história acompanha Andrew, um adolescente extremamente ansioso, que sempre encontrou conforto escrevendo contos sombrios e dividindo esse universo com Thomas, seu melhor amigo. Quando eles retornam para a Academia Wickwood, Andrew percebe que alguma coisa mudou. Thomas está distante, aparece com sangue nas roupas, seus pais desapareceram e ele passa todas as noites entrando escondido na floresta proibida. É quando Andrew resolve segui-lo e descobre que os monstros criados pelos dois realmente existem.

O que mais gostei foi justamente esse clima constante de estranheza. A floresta parece viva, os corredores da escola carregam aquela sensação de que alguma coisa ruim está prestes a acontecer e os próprios contos escritos por Andrew vão se misturando com a realidade. É um livro que lembra muito aquelas histórias de terror gótico voltadas para o público jovem, mas sem deixar de lado cenas bem perturbadoras. Tem body horror, criaturas grotescas e algumas descrições que conseguem causar um desconforto gostoso de sentir. É exatamente o tipo de leitura que eu indicaria para outubro, perto do Halloween, ou para um clube do livro, já que seria bem legal discutir teorias e aproveitar o ar de Dark academia.

Também gostei bastante da relação entre Andrew e Thomas. O romance existe, mas ele nunca parece maior do que o restante da história. A amizade entre os dois já nasce carregada de dependência emocional, confiança e culpa, então quando os sentimentos começam a aparecer, tudo parece bastante natural. Em alguns momentos eu só queria entrar no livro e mandar os dois conversarem de uma vez.

Ao mesmo tempo, achei que o livro é bem juvenil. Isso não me incomodou durante a leitura porque combina com a idade dos personagens, mas algumas decisões deles acabam existindo justamente para manter o mistério funcionando. Em certos momentos fiquei pensando que metade dos problemas seria resolvida se eles simplesmente pedissem ajuda para algum adulto. Como acontece em boa parte dos YA, a narrativa precisa que isso não aconteça para dar certo. Só que isso torna a trama menos ''lúcida''.

Sobre a escrita: a autora gosta de uma narração bastante descritiva, cheia de metáforas e imagens quase poéticas. Em muitos momentos achei isso lindo e ajudou demais a criar a atmosfera de pesadelo. Em outros, senti que algumas ideias acabavam sendo repetidas mais vezes do que precisavam. Não fiquei cansada, mas vai ter quem ache esse tipo de escrita um pouco exagerada.

Já o suspense funciona bem. Mesmo desconfiando de algumas revelações antes delas acontecerem, eu queria continuar lendo para entender como tudo seria explicado. A história consegue equilibrar fantasia, horror psicológico e drama de um jeito que faz a gente aceitar bem essa mistura.

Não Perturbe a Floresta entregou exatamente o tipo de experiência que eu esperava quando vi a sinopse e a capa. É um livro que vale muito mais pelo clima que constrói do que pelas grandes reviravoltas. A sensação de pesadelo constante, os monstros, a floresta e a relação entre Andrew e Thomas fazem a leitura compensar bastante. 

⭐ 4/5

sábado, outubro 31, 2026 No comments

 

Nem todo livro que demora para te conquistar é um livro ruim.

E eu acho que a internet está fazendo muita gente esquecer disso.

Hoje em dia, quando alguém recomenda um livro, parece que ele precisa ter uma reviravolta no capítulo 2, um surto emocional no capítulo 5 e uma obsessão coletiva antes da página 50. Se isso não acontece, muita gente conclui que o livro é chato. Mas algumas das melhores histórias que eu já li exigiram uma coisa muito simples de mim: tempo.

Se eu tivesse abandonado Fundação nas partes que eu considerei mais lentas, eu jamais teria conhecido uma das minhas sagas favoritas da vida. E essa não é uma característica exclusiva dele.

Precisamos Falar Sobre o Kevin passa páginas construindo uma tensão silenciosa antes de te dar um soco no meio da cara.

O Nome do Vento dedica muito tempo para apresentar um mundo, uma atmosfera e um personagem antes de entregar as maiores recompensas.

A Floresta Sombria passa boa parte da história desenvolvendo ideias que vão explodir sua cabeça no final.

O Oceano no Fim do Caminho parece simples durante boa parte da leitura até você perceber onde aquela construção te levou.

E A Quinta Estação exige paciência para entender seu mundo, sua estrutura e até a forma como a narrativa funciona.

O problema é que nós estamos nos acostumando a consumir histórias esperando gratificação imediata. Exatamente como a gente anda consumindo vídeos curtos. Mas literatura não funciona assim. Algumas histórias não querem te impressionar logo de cara. Elas querem plantar sementes e te fazer pensar. Muitas vezes os maiores tesouros de uma leitura estão justamente nas páginas que parecem mais tediosas. Então talvez a pergunta que você deva se fazer não seja:

'Esse livro está demorando para acontecer?'

Mas sim:

'Será que eu estou desistindo antes da parte que vai ficar comigo para o resto da vida?'


E aí, já abandonou algum livro porque achou ele ‘’lento demais’’?

domingo, outubro 25, 2026 No comments

 A correspondente  - Virginia Evans 

Adquira o seu

Sinopse

Aos 72 anos, Sybil Van Antwerp leva uma vida independente e mantém o hábito de escrever cartas para familiares, amigos, escritores e até desconhecidos. Por meio dessas correspondências, acompanhamos suas relações, seus conflitos e os acontecimentos do passado que ainda influenciam sua vida. Mas, quando recebe a notícia de que poderá perder gradualmente a visão, Sybil precisa enfrentar mudanças que ameaçam sua autonomia e a obrigam a reconsiderar os laços que construiu, os erros que cometeu e aquilo que ainda deseja viver.

Opinião

Lembre-se: as palavras, especialmente as escritas, são imortais.

Sabe aquele livro que você termina e reconhece que tem uma história importante, mas que não foi exatamente uma experiência prazerosa de leitura? Foi assim que me senti com A Correspondente. Eu entendo perfeitamente por que tanta gente se emocionou com essa história, mas, para mim, ela acabou sendo um tanto sem graça. Apesar da proposta ser bem interessante.

A protagonista é Sybil Van Antwerp, uma senhora de 72 anos, independente, inteligente, teimosa e que tem o hábito de escrever cartas para praticamente todo mundo. Familiares, amigos, escritores famosos e até desconhecidos recebem suas correspondências. E é justamente através dessas cartas, e das respostas que recebe, que vamos conhecendo sua vida, seus relacionamentos e alguns acontecimentos do passado que ainda pesam bastante em suas decisões.

Achei interessante a escolha da autora de contar a história inteiramente por correspondências, sem um narrador explicando as coisas para a gente. É aquela do ''romance epistolar'' que tivemos em ''É assim que se perde a guerra do tempo'' (que ganhou os prêmios Hugo, Nebula e Locus). Precisamos juntar as informações e prestar atenção no que Sybil conta, mas principalmente no que ela deixa de contar. Só que, apesar de gostar da ideia, não achei a leitura fluida. Algumas cartas são muito boas, outras parecem não acrescentar quase nada e, em vários momentos, tive que me esforçar para continuar. Não foi daqueles livros que eu ficava ansiosa para retomar, sabe?

A própria Sybil também não facilita muito. Ela pode ser engraçada e carinhosa, mas é bastante orgulhosa, às vezes egoísta e toma decisões que dão vontade de perguntar o que diabos estava passando pela cabeça dela. Eu até gosto de personagens imperfeitos, principalmente quando a história não tenta justificar todos os seus erros, mas não consegui criar uma conexão tão grande com ela. Em alguns momentos, achei difícil ter paciência. Sei que tô sendo mesquinha, já que é uma história da perspectiva de alguém com muita bagagem e a ideia é real passar a sensação de alguém real, mas sei lá... não deveria ter mais carisma envolvido?

“Sei que você me vê apenas como sua mãe, mas, por favor, lembre-se: 
por dentro, também sou apenas uma garota.”

Por outro lado, gostei bastante dos temas que Virginia Evans escolheu trabalhar. A possibilidade de Sybil perder a visão, por exemplo, traz uma discussão interessante sobre envelhecer, perder a independência e precisar aceitar ajuda depois de passar a vida inteira fazendo tudo do próprio jeito. O livro também fala sobre luto, culpa e aquelas coisas que a gente deixa de dizer ou resolver até perceber que talvez não tenha mais tempo. E acho que são justamente essas reflexões que fazem a leitura valer a pena.

O problema é que, para mim, a sensibilidade da história não compensou a falta de ritmo. Entendo a proposta de acompanhar a vida de alguém através de pequenos fragmentos, mas achei que faltou alguma coisa para me envolver de verdade. Existem momentos emocionantes, claro, só que passei boa parte do livro esperando que a narrativa finalmente me conquistasse.

Não achei o livro ruim, mas também não foi uma leitura que me agradou tanto quanto eu esperava. É um livro sensível, com uma temática importante e que vale o esforço para chegar ao final, mesmo que o caminho seja um pouquinho cansativo. Acho que quem gosta de histórias mais intimistas e reflexivas pode aproveitar muito mais do que eu. Só não vá esperando uma leitura rápida e envolvente, porque pelo menos comigo não foi assim. 

P.S: Sinto que vou revisitar essa leitura em alguns anos e perceber coisas que não enxerguei agora. 

⭐⭐⭐/5

domingo, outubro 18, 2026 No comments




Eu assisti em maratona!

Carrie é uma das minhas histórias favoritas do Stephen King e, mesmo assim, nunca fui do tipo que acha que uma adaptação precisa reproduzir cada detalhe do livro para ser boa. Na verdade, acho até que esse preciosismo pode atrapalhar. Uma história escrita nos anos 1970 não precisa ficar presa àquela década toda vez que alguém resolve contá-la novamente. Principalmente quando estamos falando de Carrie, uma obra que nasceu como um alerta sobre coisas que, infelizmente, continuam acontecendo. E foi justamente por entender isso que achei a nova adaptação do Prime Video tão boa.

Mike Flanagan, que para mim continua sendo praticamente irretocável quando o assunto é terror, soube preservar o que importa na história original e, ao mesmo tempo, trazer questões que conversam com a geração atual. A introdução das redes sociais e do cyberbullying, por exemplo, foi uma das escolhas que mais gostei. Carrie sempre falou sobre a crueldade adolescente, a humilhação pública e as consequências devastadoras da violência praticada dentro da escola. Só que hoje essa violência não termina quando o aluno vai para casa. Ela continua no celular, circula em vídeos, ganha comentários e pode alcançar milhares de pessoas em questão de minutos. Faz todo o sentido que uma Carrie contemporânea também precise enfrentar isso.

E acho importante lembrar que Carrie nunca foi apenas uma história sobre uma menina com poderes telecinéticos que se vinga de quem a maltratou. É também sobre a desgraça que pode ser a puberdade feminina, especialmente quando ninguém explica o que está acontecendo com o seu corpo. É sobre crescer numa família dominada pelo fanatismo religioso, sem orientação para compreender o mundo e sem ferramentas para construir relações sociais saudáveis. É sobre bullying, isolamento e as feridas que essas experiências deixam. Mas o livro também é um retrato dos Estados Unidos dos anos 1970, da organização das escolas, dos costumes e até da maneira como aquela sociedade reagiria à existência de fenômenos sobrenaturais. Se a proposta é transportar essa história para outra época, tudo isso precisa ser repensado. Não adianta atualizar o figurino e deixar o restante da narrativa vivendo cinquenta anos no passado.

Gostei bastante das mudanças feitas na estrutura da história. O foco nas entrevistas cria um senso de mistério que acompanha a série até o último episódio, mesmo para quem já conhece muito bem o destino de Carrie White. A narração em off, trazendo relatos sobre mulheres consideradas sobrenaturais ao longo da história e o sofrimento que enfrentaram, também foi uma adição muito interessante. Existe uma relação direta entre esses relatos e o que acontece com Carrie: mulheres perseguidas, temidas ou punidas por características que a sociedade não consegue compreender ou controlar. E gostei de como a série amplia essa discussão sem abandonar o drama pessoal da protagonista.

Aliás, uma das coisas que mais me agradaram foi justamente essa ampliação do universo. Personagens como Emaline, a entrevistadora e as outras mulheres que aparecem ao longo da narrativa ajudam a construir uma dimensão que as adaptações anteriores praticamente não exploraram. O próprio livro tem uma estrutura quase documental, reunindo diferentes perspectivas sobre o caso Carrie White e sobre a existência da telecinese. Então achei muito interessante que Flanagan tenha recuperado esse aspecto da obra e desenvolvido a ideia de que Carrie não é um acontecimento isolado, mas parte de um fenômeno muito maior.

Ao mesmo tempo, senti que a série ficou mais intimista em alguns aspectos, especialmente na relação entre Carrie e sua mãe. Essa continua sendo a parte mais importante da história, porque é dentro de casa que boa parte do sofrimento da protagonista começa. Não me incomodei com as mudanças na personalidade de Carrie, mas confesso que esperava um pouco mais de loucura religiosa por parte da família. No livro, o fanatismo é uma presença sufocante, que determina praticamente todos os aspectos da vida da menina. Aqui, tive a impressão de que os pais estavam mais próximos de um perfil conspiracionista do que propriamente religioso. É uma atualização que conversa com a realidade atual, claro, mas acho que dava para explorar melhor os dois aspectos. Principalmente porque a relação entre religião, culpa e repressão do corpo feminino é fundamental para a história.

Sobre o elenco, tenho pouquíssimas reclamações. Samantha Sloyan está excelente como a mãe de Carrie, o que não chega a surpreender quem já conhece o trabalho dela. Essa mulher consegue transmitir tanta coisa apenas com o olhar que às vezes nem precisa abrir a boca para deixar uma cena desconfortável. Summer H. Howell também me conquistou como Carrie. Ela é uma gracinha e consegue acompanhar muito bem as mudanças emocionais da personagem, sem cair numa interpretação caricata e sem desaparecer diante de um elenco tão competente.

Sue Snell, Tommy e a Srta. Desjardin também funcionaram muito bem para mim. Gostei das dinâmicas entre eles e de como ajudam a construir o ambiente escolar sem parecer que estão ali apenas para cumprir as funções que conhecemos do livro. E Matthew Lillard como diretor da escola? Eu jamais teria pensado nele para esse papel, mas achei sua interpretação bastante convincente. Ele transmite a postura de alguém que realmente ocupa aquela posição, sem exagerar na autoridade ou transformar o personagem numa figura artificial, nem me lembrar que ele é mais conhecido pelos papéis na comédia.

Minha maior ressalva no elenco fica para Alison Thornton como Chris Hargensen. Não consegui entender muito bem o que ela pretendia transmitir na maior parte das cenas. A Chris não me pareceu raivosa o suficiente, nem cruel o suficiente, nem vulnerável o suficiente para que suas atitudes ganhassem alguma dimensão interessante. E não digo isso porque queria uma vilã completamente unidimensional. Pelo contrário, acho ótimo quando uma adaptação encontra novas camadas para personagens que já conhecemos. O problema é que, nesse caso, não senti que essas camadas foram construídas. A personagem acabou ficando meio indefinida, e isso prejudicou minha aceitação da contribuição dela na história. 

A ambientação também merece elogios. A série consegue construir a vida dos personagens sem exagerar nos elementos visuais e sem deixar aquela sensação de cenário vazio, que às vezes aparece em produções que se preocupam mais com a estética do que com o mundo em que a história acontece. Tudo parece fazer sentido dentro daquela realidade. E gosto especialmente de como Flanagan consegue equilibrar o cotidiano escolar, os conflitos familiares e o sobrenatural sem fazer parecer que estamos assistindo a três séries diferentes.

No geral, fiquei muito satisfeita com essa nova Carrie. Acho que Flanagan compreendeu que honrar uma obra não significa tratá-la como algo intocável. Significa entender por que ela foi escrita, o que tinha a dizer ao público daquela época e como essa mensagem pode continuar relevante hoje. A série tem suas falhas, principalmente na construção de alguns personagens e na exploração do fanatismo religioso, mas gostei das novas perspectivas, do elenco, da atmosfera e da maneira como a história foi ampliada. O final foi menos cruel que o do livro, teve menos impactor nas andanças da Carrie pela cidade e ao teve uma mudança gigantesca, mas ainda foi competente.

E, considerando as possibilidades que o final novo apresenta, estou bem animada para descobrir o que vem depois. Sei que a ideia de conectar diferentes histórias de Stephen King pode causar certo receio em quem prefere adaptações mais independentes, mas, sinceramente? Eu não achei ruim não. Se for bem desenvolvida, essa proposta pode render coisas muito interessantes.

A partir daqui, SPOILERS do final da série!

Uma das coisas que mais gostei no desfecho foi a ligação estabelecida entre Carrie e os iluminados do universo de Stephen King. A ideia de que seus poderes fazem parte de algo maior abre possibilidades que me deixaram bastante empolgada, principalmente porque conversa com o aspecto quase documental do romance original, que já sugeria a existência de outras pessoas com habilidades semelhantes.

Tudo que envolveu Emaline me pareceu relativamente óbvio, então não foi exatamente essa parte que me surpreendeu. O que realmente despertou minha curiosidade foi a organização de bruxas que estava atrás de Carrie. Ainda não consegui entender quais são suas intenções ou qual será seu papel nesse universo. Será que existe alguma ligação com o culto apresentado em Doutor Sono? Ou será que essas mulheres estão procurando outras pessoas iluminadas justamente para reunir uma força capaz de enfrentar esse tipo de ser?

Não faço ideia, mas gostei muito de ficar pensando nessas possibilidades depois que a série terminou. E, meu pai do céu, imaginar um possível encontro entre Carrie White, Danny Torrance e Abra Stone já é suficiente para me deixar querendo uma continuação. Acho que estou contaminada por universos cinematográficos.

Se a proposta for realmente construir um universo compartilhado a partir das histórias de King, estou curiosíssima para ver como vão fazer isso. Sei que existem riscos, principalmente quando começam a conectar personagens e acontecimentos que originalmente funcionavam muito bem sozinhos, mas não vejo problema em explorar essas possibilidades. Desde que as conexões façam sentido e não sejam colocadas ali apenas para provocar uma reação dos fãs, acho que temos um caminho bastante promissor pela frente.

E se for feito pelo Mike Flanagan, aí é acerto garantido. 





sexta-feira, outubro 16, 2026 No comments


 

Sinopse

Depois de perder a mãe para uma doença misteriosa, Lilia Vespertine consegue uma vaga na Universidade de Dracadia, uma instituição isolada onde espera encontrar respostas sobre a enfermidade. Mas os segredos da universidade vão muito além dos rumores de assombrações, especialmente quando ela conhece Devryck Bramwell, um patologista brilhante e professor conhecido como Doutor Morte. Entre pesquisas perturbadoras, experimentos perigosos e uma atração proibida, Lilia descobre que a verdade sobre a doença pode ser muito mais assustadora do que imaginava.

Opinião

Eu amo quando um livro entrega exatamente o que eu esperava dele, especialmente uma dark academia gótica. 

Esse livro mistura romance e horror sem parecer que um dos dois está sobrando na história. E Nocticadia tem uma ambientação que me lembrou bastante a série Rastro de Sangue, da Kerri Maniscalco, o que já é um baita elogio vindo de mim. Tem autópsias, necrotérios, cadáveres, vermes, doenças misteriosas e um romance proibido acontecendo no meio dessa bagunça toda. Parece uma combinação esquisita? Talvez, mas funciona muito bem. 

A história acompanha Lilia Vespertine, uma jovem que cresceu enfrentando dificuldades e decide estudar na Universidade de Dracadia, uma instituição isolada e cercada por rumores bastante perturbadores. Ela está determinada a encontrar respostas para acontecimentos que marcaram sua vida, mas acaba se envolvendo com Devryck Bramwell, um professor tão atraente quanto misterioso, que parece saber muito mais sobre os segredos daquele lugar do que está disposto a revelar.

Preciso falar do começo desse livro porque achei fantástico. Keri Lake consegue apresentar a protagonista, estabelecer os primeiros mistérios e criar uma atmosfera desconfortável logo nas páginas iniciais. A gente percebe que existe alguma coisa muito errada acontecendo e, quanto mais informações aparecem, mais perguntas surgem. Eu estava cheia de teorias e querendo descobrir como todos aqueles acontecimentos se conectavam.

E a ambientação é provavelmente o maior acerto da autora. Dracadia tem aquele clima de universidade antiga, isolada e cheia de segredos que combina muito com uma dark academia, mas o livro vai além da estética de corredores escuros e professores misteriosos. Existe um horror físico muito presente na história, com descrições de autópsias, parasitas, mariposas e manifestações de uma doença que tornam algumas passagens bastante incômodas. E eu adorei isso! São cenas grotescas, mas que despertam curiosidade em vez de parecerem colocadas ali apenas para chocar.

Tudo que envolvia a toxina, a doença os efeitos dela foram especialmente interessantes para mim. Gostei de acompanhar as descobertas e de tentar entender qual era a ligação de Devryck com aquilo tudo. A autora consegue transformar elementos que poderiam ser simplesmente nojentos em peças importantes do suspense. Tem momentos em que a gente fica com um pouco de gastura lendo, mas continua porque quer saber mais. É exatamente o tipo de coisa que eu esperava encontrar quando comecei o livro.

O problema é que, depois de uma abertura tão boa, senti que o ritmo caiu um pouco. Não é que a história fique parada, porque os acontecimentos estranhos continuam e o mistério vai ganhando novas camadas. Só que existe uma diferença entre aumentar a quantidade de situações suspeitas e realmente fazer a investigação avançar. Em alguns momentos, parecia que eu estava acumulando perguntas sem receber informações suficientes para começar a montar as respostas.

Também tive dificuldade com a construção da Lilia. Ela é apresentada como uma mulher forte, decidida e que precisou aprender a se virar desde cedo. Aquela personagem com ''inteligência das ruas'', sabe? Só que demora bastante para ela começar a demonstrar essa esperteza. Algumas atitudes não combinam tanto com a personalidade que a autora havia estabelecido no início, principalmente considerando os perigos ao redor dela. Não precisava ser uma protagonista infalível, mas eu esperava um pouco mais de perspicácia. 

Já o romance com Devryck foi uma delícia. A dinâmica de professor e aluna é um daqueles clichês que dependem muito da execução, ainda mais quando estamos falando de um dark romance, mas achei que Keri Lake soube desenvolver a atração entre os dois sem apressar demais o envolvimento. Existe tensão, o relacionamento é seduzente e a proximidade vai sendo construída de uma maneira que me convenceu. A única coisa que achei um pouco exagerada foi a obsessão de Devryck por Lilia, que pareceu surgir quase instantaneamente. O relacionamento demora para acontecer, mas o interesse dele já começa numa intensidade que pra mim não acompanhou a apresentação do personagem.

E aí chegamos à resolução do mistério, que foi a parte que mais me deixou dividida. Gostei das respostas, principalmente de como os elementos relacionados à doença, à toxina e ao envolvimento de Devryck se encaixam na história. O problema foi a maneira como chegamos até elas. Depois de tanto tempo construindo o suspense, algumas descobertas e acontecimentos decisivos são resolvidos rápido demais. Eu esperava um desenvolvimento mais elaborado, talvez até um confronto mais marcante, e acabei achando essa parte um pouco anticlimática.

É frustrante porque o livro tinha conseguido me deixar muito curiosa. A abertura prometia uma investigação cheia de possibilidades e, mesmo a explicação final sendo satisfatória, o caminho até ela não teve todo o impacto que eu imaginava. Não acho que seja um problema de falta de ideias, muito pelo contrário. Keri Lake criou elementos bem interessantes, mas poderia ter dedicado mais tempo à conclusão. Sabe aquela correria depois de vários capítulos arrastando o mistério? Foi tipo isso.

Apesar dessas ressalvas, me diverti bastante com Nocticadia. É um dark romance que realmente aproveita sua ambientação gótica e não tem medo de trabalhar com elementos de horror corporal. Gostei especialmente de perceber que o mistério não existe apenas para colocar os protagonistas em situações românticas. Ele tem importância própria e, em vários momentos, foi justamente o que mais me interessou. Aliás, tem um mistério principal que envolve tudo, mas outras subtramas com cada personagem, então nesse sentido o livro nunca fica tedioso.

O final fecha bem a história principal, o que também gostei, porque não sou muito fã quando um livro enorme termina deixando todas as respostas para uma continuação. Mas a autora ainda encontrou espaço para sugerir uma possível nova história envolvendo outro casal. Achei esse gancho bastante previsível, confesso, mas fiquei animada mesmo assim. 

No geral, Nocticadia entregou uma combinação de romance proibido, investigação e horror que funcionou muito bem comigo. Se você gosta da atmosfera de romances góticos em castelos sombrios e não se incomoda com descrições grotescas, acho que vale conhecer Dracadia. Eu certamente voltaria para uma continuação, principalmente se Keri Lake mantivesse essa mesma proposta de mistério e horror.

terça-feira, outubro 13, 2026 No comments

 

Sinopse

Agneta Lejongård abandonou os privilégios da aristocracia sueca para estudar arte em Estocolmo e participar do movimento sufragista, determinada a construir uma vida longe das tradições de sua família. Mas uma tragédia inesperada a obriga a retornar ao Solar dos Leões e assumir responsabilidades para as quais nunca se preparou. Dividida entre seus ideais de liberdade e as obrigações de sua posição social, Agneta precisará enfrentar conflitos familiares, antigos ressentimentos e as limitações impostas às mulheres numa sociedade que começa a se transformar.

Opinião

Eu adoro sagas familiares, principalmente as que acompanham diferentes gerações de mulheres e mostram como suas vidas foram influenciadas pelas mudanças sociais de cada época. Então ''A Herança de Agneta'' chamou minha atenção logo pela premissa: uma jovem aristocrata que abandona os privilégios da família para estudar arte, participa do movimento sufragista e precisa retornar à propriedade dos pais por causa de uma tragédia? Ainda por cima na Suécia do início do século XX? Tinha tudo para ser uma história muito interessante. Só que eu esperava algo diferente do que recebi.

Agneta Lejongård é filha de condes, mas não quer seguir o futuro que sua família planejou. Enquanto seus pais esperam que ela se case com alguém de sua posição social, Agneta prefere viver em Estocolmo, estudar arte e participar das manifestações pelos direitos das mulheres. Só que uma tragédia familiar a obriga a voltar para o Solar dos Leões e assumir responsabilidades para as quais nunca se preparou.

A premissa é boa, e gostei especialmente de conhecer um pouco da aristocracia sueca e das transformações que começavam a acontecer naquele período. O problema é que, conforme a história avançava, percebi que não estava gostando tanto assim de acompanhar a protagonista.

Agneta é uma personagem difícil de simpatizar. Não porque seja independente, questionadora ou tenha dificuldades para aceitar a vida que lhe foi imposta. Pelo contrário, esses são justamente os aspectos que poderiam torná-la interessante. O que me incomodou foi a maneira como ela reage a praticamente tudo. Existem situações realmente complicadas, principalmente considerando a época em que vive, mas às vezes Agneta faz parecer que qualquer contratempo é o fim do mundo. E chega uma hora em que esse comportamento cansa.

Acho que um dos maiores problemas é que eu fui ler achando que era seria parecida com a Jakobe de ''Um homem de sorte'' (o filme dinamarquês de 2018, não a adaptação de Nicholas Sparks com o Zac Efron). A Jakobe meio que faz o caminho inverso da Agneta e como eu tenho ela como uma das minhas maiores referências de personagens femininas dos dramas históricos, tive expectativas enormes.

Além de tudo, também achei que existe uma contradição entre a mulher decidida que conhecemos no começo e algumas atitudes que ela toma ao longo da história. Agneta luta tanto para conquistar sua independência, mas em determinadas situações parece agir sem pensar nas consequências, especialmente quando o assunto envolve seus relacionamentos. Não espero personagens perfeitos, muito menos protagonistas que acertem sempre, mas gosto de entender as motivações por trás de suas escolhas. Aqui, algumas mudanças acontecem tão rapidamente que tive dificuldade de acompanhar seus sentimentos.

E isso acabou prejudicando também os romances. Não achei que os relacionamentos receberam desenvolvimento suficiente para que eu me envolvesse de verdade. Em alguns momentos, parecia que a autora estava mais interessada em fazer a história avançar do que em mostrar como aqueles sentimentos foram construídos. Para um livro que dedica bastante espaço à vida pessoal da protagonista, senti falta justamente dessa conexão. E, claro, eu sou uma abestalhada por cenas românticas. Queria um pouco mais.

Já a relação entre Agneta e sua mãe foi uma das partes que mais gostei. As duas possuem visões muito diferentes sobre o papel da mulher e sobre as obrigações familiares, e é interessante perceber como essas diferenças influenciam a maneira como se tratam. A mãe de Agneta passou a vida seguindo determinadas regras, enquanto a filha deseja romper com todas elas. Acho que esse conflito poderia ter sido ainda mais explorado, porque havia bastante coisa interessante para discutir ali. Acho que numa adaptação desse livro, a relação delas seria o ponto forte.

Outra questão que tive é que eu esperava encontrar mais sobre o contexto histórico. O movimento sufragista sueco, as diferenças entre as classes sociais e a própria administração do Solar dos Leões poderiam ter recebido mais atenção. Agneta assume uma propriedade importante, com funcionários e criação de cavalos, mas a narrativa acaba priorizando seus dramas pessoais. E como nem sempre tive paciência com esses dramas, confesso que senti ainda mais falta das outras tramas.

Apesar disso, não foi uma leitura ruim. A escrita da Corina Bomann é bastante acessível, a história flui bem e o universo apresentado tem potencial para render uma saga familiar interessante. Gostei da ambientação e de conhecer uma sociedade que não costuma aparecer tanto nos romances históricos que leio. Só queria que a protagonista fosse um pouco menos cansativa e que a autora tivesse aproveitado melhor os acontecimentos ao redor dela.

⭐⭐⭐

sexta-feira, outubro 09, 2026 No comments

 


Esse é mais um dos exemplos de que ''bad writing never wins''.

Eu já não sou exatamente fã da escrita da Colleen Hoover. Acho rasa, exagerada e muitas vezes emocionalmente óbvia. Mas Verity é uma das poucas histórias dela que realmente funciona para mim porque, apesar de tudo, consegue criar uma atmosfera de suspense interessante, personagens moralmente duvidosos e aquela sensação gostosa de terminar o livro pensando: “tá, mas em quem eu acredito agora?”. O filme conseguiu pegar justamente essa parte e jogar pela janela.

Começando pelas atuações: são estranhamente caricatas para um elenco cheio de nomes consagrados. Anne Hathaway é quem salva o que dá para salvar porque, bom, ela é Anne Hathaway. Tem presença, charme e consegue dominar a cena quase sem esforço. O problema é que o roteiro parece passar o filme inteiro segurando ela pela mão e dizendo: “não inventa muito, tá?”. Não deixa a atriz se espalhar, não deixa Verity ser realmente imprevisível, sedutora, ameaçadora, frágil ou ambígua. Em vez de fazer o público desconfiar de tudo, o filme praticamente aponta uma seta luminosa para a personagem dizendo: “É ELA”.

E isso destrói metade da graça.

Já a Dakota Johnson continua interpretando Dakota Johnson em diferentes cenários. Lowen deveria estar entrando num estado cada vez mais paranoico, perturbado e obsessivo, mas ela parece emocionalmente no mesmo lugar durante quase todo o filme. O roteiro ainda, descaradamente, dá a ela um monólogo pra explicar o que a atuação dela é incapaz de dizer. E você sabe, eu gosto do ''mostre, não conte''. No clímax, em determinados momentos, a expressão dela é de quem está indo comprar pão e não de quem acabou de descobrir coisas completamente bizarras. Aliás, ninguém nesse filme parece reagir como um ser humano normal reagiria aos acontecimentos. A casa pode praticamente explodir emocionalmente e os personagens ficam com cara de “complicado isso aí”.

O ritmo também é inacreditavelmente lento. E não lento de forma elegante, daquela que vai criando uma sensação sufocante. É só lento mesmo. A atmosfera de angústia e paranoia que existe no livro simplesmente não aparece. Para piorar, o filme parece ter uma relação pessoal contra trilha sonora. Algumas revelações enormes acontecem com uma ausência de música tão agressiva que eu só ouvia alguém tossindo ou comendo pipoca na sala de cinema. Faltou trilha, faltou tensão, faltou peso.

E as mudanças de roteiro? Algumas parecem feitas especificamente para diminuir o impacto da história. Elas enfraquecem a construção da Lowen, mudam bastante a personalidade do marido da Verity e retiram boa parte do peso das situações. Também continuo sem entender por que resolveram cortar a outra gêmea, já que ela tinha uma função importante na construção do manuscrito e na própria forma como entendemos Verity.

Mas o maior crime é o que fizeram com a principal discussão do livro: manuscrito ou carta?

Essa é literalmente a parte mais interessante de Verity. O livro termina e você fica tentando remontar tudo, discutindo teorias, lembrando de detalhes e escolhendo qual versão parece menos absurda. É uma ambiguidade que alimenta discussões até hoje.

No filme? Quase nada.

Você sai da sessão e parece que todo mundo recebeu um panfleto na entrada explicando quem é a vilã. Não existe aquele susto final. Não existe aquela sensação de “meu Deus, e se eu entendi tudo errado?”. Não existe praticamente nenhuma dúvida real sobre Verity. E, sinceramente, se você adapta Verity e tira justamente a discussão sobre quem Verity realmente é, sobra o quê? Nem existe nem a discussão sobre as escolhas da Lowen e o que isso quer dizer sobre ela. 

No fim, o filme consegue ser ao mesmo tempo exagerado nas atuações e morno na tensão. Anne Hathaway tenta carregar tudo nas costas com o carisma dela, Dakota Johnson continua passeando tranquilamente pelo mesmo papel de sempre e o roteiro transforma uma história que deveria ser perturbadora e paranoica em um suspense que parece estar com medo de incomodar o público. Nisso, ''A empregada'' deu de 1000 x 0.

Saímos do cinema não pensando “manuscrito ou carta?”, mas “era só isso?”.

sábado, outubro 03, 2026 No comments
Older Posts

Sobre Mim

About Grazi

Grazielle Souza, taurina, adoro panfletar tudo que amo na internet desde 2010.

Links úteis

  • Link comissionado da Amazon
  • Siga no Instagram

Parceiro Arqueiro 2026

Parceiro Arqueiro 2026
Parceiro Arqueiro 2026

Parceiro Principis 2026

Parceiro Principis 2026
Parceiro Principis 2026

Parceiro Valentina 2026

Parceiro Valentina 2026
Parceiro Valentina 2026

Parceiro Intrínseca 2025 e 2024

Parceiro Intrínseca 2025 e 2024
Parceiro Intrínseca 2025 e 2024

Parceiro Rocco 2025

Parceiro Rocco 2025
Rocco Lover 2025

Translate

Post em Destaque

COISAS QUE SÓ LEITORES ENTENDEM

  Coisas que só leitores entendem - A vontade de comprar um livro novo é proporcional à quantidade de livros não lidos da estante. - É prová...

Mais Lidos da Semana

  • My Personal Planer #1 O que é?
  • Resenha: Os Despossuídos - Úrsula Le Guin
  • Resenha: Pedra no Céu - Isaac Asimov
  • Filmes: Uma lição de amor
  • Resenha: Um estranho numa terra estranha - Robert A Heinlein

Arquivo do Blog

Created with by ThemeXpose