Após oito (!) anos de espera, Euphoria finalmente ganhou seu fim, após a HBO confirmar que a terceira temporada realmente foi a última. E estou aqui para comentar o que achei sobre o destino dos personagens, além de dar uma opinião geral sobre o arco dessa temporada final. Escolhi esse formato porque, para mim, essa série sempre foi sobre as pessoas, não sobre o enredo. E é por isso que fiquei decepcionada. Vamos lá.
SPOILERS A FRENTE
Nate Jacobs
Não é possivel assistir as duas primeiras temporadas e não pegar, no mínimo, ranço do Nate. Ele é violento, tóxico, complicado, ingrato, mimado e muitas outras coisas. Mas é também um grande personagem, quicá o mais interessante dentre todos. Na saudosa primeira temporada, onde os personagens têm arcos reais e são trabalhados com origem, traumas e objetivos, ele tem muitas cenas explicando de onde vêm os sentimentos conflitantes dele. Personagens complicados são ótimos de assistir. O mundo não é só preto no branco, então a ambiguidade do Nate (ainda que no espectro mal) atraía quem assistia. Porém na terceira temporada ele não teve arco algum se não o de punição e morte. Nate era uma sombra dele mesmo. Não houve qualquer diálogo significativo, ligação reforçada ou quebrada nem lição tirada do que ele passou. Pareceu mais uma história de ''olha o que você merece se você for um c*zão no ensino médio''. Não gostei de um segundo dele em tela e não pelos sentimentos das temporadas anteriores, mas sim porque aquele não era o personagem que eu queria acompanhar e muito menos a história que caberia a ele. Sinceramente? Nota 1/10 para esse arco, e a nota 1 é só porque ao menos teve finalização, ainda que insatisfatória.
Antes uma garota trans destemida, bem resolvida, disponível para uma amizade um tanto complicada com uma pessoa mais complicada ainda, sonhadora, artística... agora uma mera nota de rodapé. Juntando todas as suas cenas, Jules teve tempo de tela de menos de meia hora (das 9h de duração). Considerando que ela era uma personagem foco, essa redução foi drástica e despropositada. Só posso achar que aconteceu com ela o mesmo que houve com a Barbie Ferreira (Kat): algum desentendimento levou a produção a querer eliminar sua personagem. Jules veio para nada, fez absolutamente nada e saiu de cena mais vazia ainda. De intenção, de objetivos, de temas, de lições. E ainda brigada com a Rue. Hunter merecia muito mais do que isso.
Lexi Howard
Ela foi 1/2 da dupla que salvou a segunda temporada da série, finalizou em um lugar interessantíssimo para o crescimento dela e acabou a terceira temporada assim como a maioria dos outros: incompleta. Lexi não conquistou nada do que queria e só não virou put* ou criminosa como os outros porque a atriz é nepobaby e ninguém seria besta de humilhar ela. Lexi foi o estereótipo da garota virgem dos filmes: tímida, reprimida, insegura e só serve para levar os outros aos seus enredos principais. A ''melhor amiga'' para sempre (sendo justa, acho que a ausência do Fezco foi o que levou a isso). Terminou brigada com Rue, sem responder a oferta da Cassie, sem entender nada do que tava acontecendo e parecendo que não ligava muito de qualquer forma. Pelo menos era a única com uma gota de sanidade mental.
Maddy Perez
Talvez a personagem mais cativante e magnética do elenco inteiro, ainda muito competente em fazer com que nos importemos com o que acontece com ela, mas agora ''emburrificada''. Maddy era uma garota justa, leal, inteligente, perceptiva, segura, altiva e veio para essa temporada praticamente apagada. O enredo dela é carregado pelo carisma da atriz. Sério que alguém achou de bom tom transformar ela numa caf3tina? Fazê-la entrar num acordo com um cafetã0 envolvido com tráfico de pessoas? A Maddy da primeira temporada nunca que ia dar uma mancada dessa. Ela sentiria o cheiro do perigo de longe. Ela provavelmente aconselharia a Rue a sair dessa também. Jamais que ela iria abrir a boca sobre a Rue estar envolvida com a divisão de narcóticos justamente para o chefe criminoso dela. Você pode argumentar que é só uma jovem, que comete erros. Mas a Maddy construída nas outras 16h dessa série não cometeria ESSE erro. Ninguém me convence disso. E também não se colocaria nas situações que ela passa nessa temporada, exceto, talvez, se botar em enrascada para salvar a Cassie.
Cassie Howard
Vamos deixar de lado as polêmicas da atriz e focar na série e personagem, ok? A Cassie não era uma personagem reduzida a sua sexualidade. Era uma menina com pânico de abandono e desesperada por validação. Não só de homem. Ela queria ser amada: pela Maddy, pela família, pelos namorados, pelos colegas. Ela queria preencher o vazio dentro dela. Ela tinha um arco de desenvolvimento, ainda que desesperador e frustante. E aí aqui ela é reduzida a um token de criadores de conteúdo +18. A série nem ao menos glamuriza ou romantiza a experiência da Cassie. Só abusa da imagem dela e pronto. Não tem nenhum tipo de direção que a trama segue ou qualquer senso de aprendizado, fosse qual fosse. A trama não serve pra nada e é interrompida pela do Nate. E nunca mais volta. Cassie está como a irmã: incompleta. Só que no espectro sexual contrário. Eu gostei sim da cena surreal que faz alusão ao ataque da mulher de 15 metros. Ali foi a única parte que não achei apenas uma exploração da imagem da Sydney, mas uma referência até divertida. Mas de resto achei tudo absolutamente gratuito, apenas querendo dizer que Cassie faria de tudo para chamar atenção. Mas era essa premissa dela não é? A Cassie querer AMOR. A produção inteira esqueceu disso. Felizmente há um fechamento entre ela e a Maddy que é sim algo que faz sentido narrativo entre elas. E a atriz foi competente em todas as cenas.
Estou até agora tentando entender porque esse personagem ganhou mais tempo de tela que a galera que a gente acompanhava desde a primeira temporada (também não entendi a necessidade da história de origem do Álamo), mas estou satisfeita com o arco dele. Desde que aquele caderninho apareceu, eu senti o que iria ser escrito nele. E doeu. É o único arco bem aproveitado da série. Com começo, meio e fim. Uma pena que precisou de um brincadeira de faroeste e assassinato de personagens no meio disso. Ali é um personagem com profundidade e motivação e teve um final eficiente, ainda que triste pra caramba.
Ruby Bennett
Nossa narradora onisciente. A personagem que Zendaya considerada a mais important de sua carreira até agora. Uma grande presença em todas as suas cenas, dominando o ambiente, mas completamente perdida. Ficou muito claro para todo mundo assistindo qual seria o seu final (especialmente ligando ao arco do Ali). Mas depois de tanto apanhar, tanto sofrer, tanto tentar, tanto pedir, tanto entender... porque esse ainda era o final adequado para o showrunner? Rue sempre foi um tipo de exemplo, de espelho aos jovens que sofrem com o mesmo problema dela. Qual a dificuldade de deixá-la continuar sendo um raio de esperança nessa luta já extremamente triste e complicada? Se era pra matar a narradora, porque não na cena em que ela canta All for us ao final da primeira temporada? Todas acharam que aquilo era uma overdose e considerando a qualidade daquela temporada, teria sido um final muito mais digno e impactante. Mas crescer a personagem e matá-la no momento de maior lucidez de sua vida, quando ela procurou perdão e redenção, foi maldoso. Eu entendo, mas me reservo ao direito de achar péssimo. Não gostei e não acho um final corajoso. Pelo contrário, há um covardia enorme de fazer isso no seu momento de sobriedade e puxando a imagem do Fezco/Angus junto (que morreu da mesma coisa). Não achei ''lindo'' ou catártico como parte do fandom. Achei de mau gosto, ainda que a cena que levou a isso tenha sido visualmente interessante e muito bem atuada.
No geral, minha opinião final é que foi um final medíocre dado que não finaliza os arcos de praticamente ninguém que era personagem-foco, dá mais tempo de tela aos vilões, desestruturou a trilha sonora com a ausência completa de uma das maiores contribuições para o sucesso da série (Labrinth), desestilizou os visuais, retirou tudo que fazia os personagens serem eles mesmos e entregou algo totalmente incoerente com o que construiu nas temporadas anteriores. Não achei divertido em 90% do tempo, não senti a conexão que havia com os arcos anteriores, não me senti tentada a discutir nada e ainda trabalhou bem mal o tema mais relevante que trouxe: a epimedia de fentanil que tá rolando nos EUA.
Fico muito insatisfeita com a quantidade de finais terríveis que séries boas e promissoras andam tendo. Não sei se isso é questão de ego, falta de planejamento ou desconexão com a própria história criada, mas alguém precisa fazer alguma coisa. A indústria de séries está sofrendo. E quem assiste também.









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