Opinião e Resenha: Verity (Colleen Hoover) - Quando nem o carisma da Anne Hathaway salva o roteiro
Esse é mais um dos exemplos de que ''bad writing never wins''.
Eu já não sou exatamente fã da escrita da Colleen Hoover. Acho rasa, exagerada e muitas vezes emocionalmente óbvia. Mas Verity é uma das poucas histórias dela que realmente funciona para mim porque, apesar de tudo, consegue criar uma atmosfera de suspense interessante, personagens moralmente duvidosos e aquela sensação gostosa de terminar o livro pensando: “tá, mas em quem eu acredito agora?”. O filme conseguiu pegar justamente essa parte e jogar pela janela.
Começando pelas atuações: são estranhamente caricatas para um elenco cheio de nomes consagrados. Anne Hathaway é quem salva o que dá para salvar porque, bom, ela é Anne Hathaway. Tem presença, charme e consegue dominar a cena quase sem esforço. O problema é que o roteiro parece passar o filme inteiro segurando ela pela mão e dizendo: “não inventa muito, tá?”. Não deixa a atriz se espalhar, não deixa Verity ser realmente imprevisível, sedutora, ameaçadora, frágil ou ambígua. Em vez de fazer o público desconfiar de tudo, o filme praticamente aponta uma seta luminosa para a personagem dizendo: “É ELA”.
E isso destrói metade da graça.
Já a Dakota Johnson continua interpretando Dakota Johnson em diferentes cenários. Lowen deveria estar entrando num estado cada vez mais paranoico, perturbado e obsessivo, mas ela parece emocionalmente no mesmo lugar durante quase todo o filme. O roteiro ainda, descaradamente, dá a ela um monólogo pra explicar o que a atuação dela é incapaz de dizer. E você sabe, eu gosto do ''mostre, não conte''. No clímax, em determinados momentos, a expressão dela é de quem está indo comprar pão e não de quem acabou de descobrir coisas completamente bizarras. Aliás, ninguém nesse filme parece reagir como um ser humano normal reagiria aos acontecimentos. A casa pode praticamente explodir emocionalmente e os personagens ficam com cara de “complicado isso aí”.
O ritmo também é inacreditavelmente lento. E não lento de forma elegante, daquela que vai criando uma sensação sufocante. É só lento mesmo. A atmosfera de angústia e paranoia que existe no livro simplesmente não aparece. Para piorar, o filme parece ter uma relação pessoal contra trilha sonora. Algumas revelações enormes acontecem com uma ausência de música tão agressiva que eu só ouvia alguém tossindo ou comendo pipoca na sala de cinema. Faltou trilha, faltou tensão, faltou peso.
E as mudanças de roteiro? Algumas parecem feitas especificamente para diminuir o impacto da história. Elas enfraquecem a construção da Lowen, mudam bastante a personalidade do marido da Verity e retiram boa parte do peso das situações. Também continuo sem entender por que resolveram cortar a outra gêmea, já que ela tinha uma função importante na construção do manuscrito e na própria forma como entendemos Verity.
Mas o maior crime é o que fizeram com a principal discussão do livro: manuscrito ou carta?
Essa é literalmente a parte mais interessante de Verity. O livro termina e você fica tentando remontar tudo, discutindo teorias, lembrando de detalhes e escolhendo qual versão parece menos absurda. É uma ambiguidade que alimenta discussões até hoje.
No filme? Quase nada.
Você sai da sessão e parece que todo mundo recebeu um panfleto na entrada explicando quem é a vilã. Não existe aquele susto final. Não existe aquela sensação de “meu Deus, e se eu entendi tudo errado?”. Não existe praticamente nenhuma dúvida real sobre Verity. E, sinceramente, se você adapta Verity e tira justamente a discussão sobre quem Verity realmente é, sobra o quê? Nem existe nem a discussão sobre as escolhas da Lowen e o que isso quer dizer sobre ela.
No fim, o filme consegue ser ao mesmo tempo exagerado nas atuações e morno na tensão. Anne Hathaway tenta carregar tudo nas costas com o carisma dela, Dakota Johnson continua passeando tranquilamente pelo mesmo papel de sempre e o roteiro transforma uma história que deveria ser perturbadora e paranoica em um suspense que parece estar com medo de incomodar o público. Nisso, ''A empregada'' deu de 1000 x 0.
Saímos do cinema não pensando “manuscrito ou carta?”, mas “era só isso?”.


0 comments