Resenha: Xeque Mate - Ali Hazelwood
Sinopse
Quando Mallory Greenleaf abandona o xadrez após um trauma familiar, sua vida passa a girar em torno de sobreviver: trabalhar numa oficina mecânica, pagar contas e cuidar da mãe doente e das irmãs. Mas tudo muda quando ela participa de um torneio beneficente e derrota Nolan Sawyer, o campeão mundial de xadrez — e o garoto prodígio mais famoso do circuito. Enquanto Nolan insiste em continuar jogando contra ela, Mallory tenta fugir do esporte que destruiu sua família… e da atração crescente entre os dois.
Opinião
“Xeque-mate” foi um dos livros mais agradáveis da Ali Hazelwood que li, e talvez seja porque ele não tenta parecer mais inteligente, mais profundo ou mais dramático do que realmente é. Ele entende perfeitamente o tipo de história que quer contar: um romance nerd, divertido, confortável e emocionalmente acessível. Dentro disso, funciona bem.
Depois de alternar entre livros da autora que eu amava e outros que me deixavam completamente cansada das mesmas fórmulas, eu realmente não esperava gostar tanto desse. Ainda mais porque, olhando de longe, parece “mais do mesmo”: protagonista feminina inteligente e socialmente exausta, protagonista masculino absurdamente bonito e emocionalmente obcecado, tensão construída em torno de falhas de comunicação e um nicho extremamente específico servindo de pano de fundo: dessa vez, o xadrez competitivo.
Só que aqui existe um detalhe importante: o livro tem uma energia muito mais leve e juvenil. Ainda bem.
Mallory Greenleaf não está tentando revolucionar a ciência enquanto vive um enemies to lovers corporativo. Ela é uma adolescente tentando sobreviver. Trabalha numa oficina mecânica, sustenta a casa, cuida da mãe doente e das irmãs mais novas enquanto carrega um ressentimento enorme pelo xadrez e pelo próprio pai (algo que a gente vai entendendo aos poucos). O xadrez é um esporte que ela associa diretamente à destruição da própria família. Então quando ela derrota Nolan Sawyer (o atual campeão mundial) num torneio beneficente aleatório, o livro começa de verdade (e acontece logo nos primeiros capítulos).
O Nolan é exatamente aquele tipo de personagem que a Ali Hazelwood escreve tranquilamente porque ela SABE que funciona. Ele é lindo, alto em níveis quase sobrenaturais, meio fechado, direto e completamente encantado pela protagonista desde o primeiro segundo. Só que diferente de outros protagonistas masculinos da autora, aqui ele parece menos idealizado e mais divertido. O humor seco dele funciona muito bem e a dinâmica entre os dois cresce de forma gostosa justamente porque nasce de algo simples: eles genuinamente gostam de passar tempo juntos. Eles compartilham um gosto peculiar.
Também gostei bastante do fato do livro conseguir inserir o universo do xadrez de maneira acessível. Eu não entendo absolutamente nada de xadrez além do movimento básico das peças e ainda assim fiquei envolvida pelas competições, pelos torneios, pela pressão do circuito profissional e pela forma como o esporte é tratado quase como uma linguagem emocional entre os personagens e meio que um arquiteto da personalidade deles. O livro entende que o leitor não precisa virar especialista para sentir tensão durante uma partida.
E acho que isso resume bem a experiência de leitura: Xeque-mate é muito mais sobre pessoas emocionalmente quebradas tentando se entender do que sobre xadrez em si.
A Mallory especificamente funciona melhor do que várias protagonistas anteriores da Ali porque o livro permite que ela seja desagradável às vezes (e as pessoas reagem a ela sendo desagradáve, sem ficar passando pano). Ela é defensiva, impulsiva, desconfiada e irritante, mas faz sentido. Existe uma exaustão acumulada nela que torna suas reações compreensíveis. Dá vontade de sacodir ela, mas entende de onde aquilo vem.
O problema é que o livro exagera muito na dinâmica familiar dela.
A doença da mãe é tratada como algo incapacitante a ponto da Mallory praticamente assumir o papel materno dentro da casa, enquanto as irmãs agem com um nível de ingratidão e alienação que parece artificial só para reforçar o sofrimento da protagonista. Em muitos momentos, os diálogos familiares não soam naturais: parecem construídos apenas para fazer Mallory carregar o peso emocional da história inteira sozinha. E quando acontece a virada emocional perto do final, ela surge rápida demais e inconsistente com o comportamento que vimos durante o resto do livro.
Ainda assim, o romance sustenta muito bem a narrativa. Nolan e Mallory funcionam porque compartilham feridas parecidas. Existe uma identificação silenciosa entre eles que deixa tudo mais convincente. E gosto que o livro não tenta transformar o Nolan num “bad boy” de verdade, apesar de ser apresentado como um jogador esquentadinho. No livro ele é só um nerd absurdamente apaixonado tentando apoiar alguém que admira e reconquistando o gosto pelo seu hobby por causa do desafio que a Mallory traz a ele.
No fim das contas, Xeque-mate não é um livro revolucionário. Não vai mudar a vida de ninguém, não reinventa romance contemporâneo e nem tenta fazer isso. E é por isso que eu gostei.
4/5 ⭐

0 comments